* por: ju
Eu adoro pedir, mas não costumo muito escutar conselhos. Meu pai fala que eu faço cu doce quando digo que quero voltar, meu irmão fala que a minha humildade lhe irrita e que os homens têm medo de mim porque eu sou inteligente, decidida e fria. De um certo modo eu me joguei no estilo de vida europeu, e esse negócio de estudar culturas e comportamentos, me deixou mais fascinada ainda pelo mundo. Ficar aqui significa estar presa. Presa por um visto, por um trabalho que não é exatamente o que eu gostaria de fazer na vida, mas com um chefe que eu adoro, que compra bolacha recheada pra gente e traz café sem açucar pra mim, porque diz que preciso emagrecer. Eu sempre tive sorte com meus chefes e eu sempre fui assim de falar as coisas na cara. E sempre achei que se é pra tentar, então tenta direito. Estou adorando minha nova casa, meus novos amigos, mas preciso de mais mudanças. É ótimo poder dançar Belle and Sebastian na sala de casa, só de camiseta e calcinha, fazendo de conta que o controle remoto da TV é o meu microfone. E adoro saber das histórias no dia seguinte, depois daquela noite em que eu jurava de pé junto que eu sempre tinha sido apaixonada naquele carinha. A última vez que aconteceu isso foi na despedida do meu irmão, que ele me obrigou a sair e a gente tomou uma garrafa inteira de vodca. “Mas Juliana, ele não tem nada a ver com você!!!” “Claro que tem! Ele gosta de Radiohead!” “Mas ele é feio pra caralho!” “Que isso, Pedro! Só porque ele não tem um dente?” Hahaha. E no dia que eu estava brigando com o idiota do espanhol que veio com essa história de especial pra cima de mim: “É que eu vou te machucar…” “Machucar? Você não me conhece.” “Sim, te conheço e você é muito sensível. Muito especial.” “Especial o caralho. Se não quer nada comigo, não vem com desculpa de especial não. Fala na cara. Não fica achando que eu vou me apaixonar por você e sofrer. Até parece que eu não tenho mais opção na vida…” “Então perae que eu vou pegar minha blusa e já volto.” Daí apareceu o grego gatinho que eu tinha conhecido há dias e sentou ao meu lado. Quando volta o espanhol eu tava conversando com o outro. “Que que é isso?” “Um amigo que encontrei aqui na rua.” E daí ele viu que a otária ali não era eu, se bem que nessa noite eu acabei sendo, dispensei o grego, que foi embora pra Grécia e me mandou uma mensagem falando que eu era especial. E até hoje a gente se fala. Hahaha. E pior do que essa é ser “mulher pra casar”, porque quando não tá na hora disso acontecer, é a pior coisa que uma mulher pode escutar. E foi nessa que o italiano deixou a mala e as cuecas sujas aqui em casa, porque se ele tivesse 30 anos, ele se casaria comigo. Mas ele não tem e nem eu. Então a gente continua assim. Ele vai visitar meu affair sueco, enquanto eu fico aqui morrendo de trabalhar numa equipe de 3 homens onde todos me empurram pro primeiro nerd que aparece. “Você já viu o Tomás? Ah, ju, ele é gatinho.” É que meu chefe acredita no amor e acha que eu preciso encontrar a minha alma gêma a todo custo. Eu falo pra ele que ela ainda tá vagando por aí e que eu ainda vou encontrá-la. Não tô com pressa, pelo contrário. E só eu tenho uma música que ninguém sabe que é minha e que daqui uns dias vai ser baladinha em todas as rádios. Porque eu sou especial e faço coisas especiais. É que com a minha delicadeza eu daria uma péssima pedreira. Porque a minha maior qualificação é a delicadeza, a graça, a suavidade, a leve estridência e o toque de loucura, claro. E a mistura de tudo isso faz com que eu seja assim: especial. Hahaha. Melhor acreditar nisso do que não acreditar em nada!